segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Serpente


Uma vez acostumada com os dóceis animais domésticos, na adolescência, me senti impelida a procurar emoções mais fortes.
Todas as novidades nos atraem nessa época, e por mais que hoje eu saiba quão imbecis foram algumas situações, na época eu achava simplesmente demais!
Por isso passeava na beira do pântano. Caro leitor, tudo o que aqui se lê são metáforas baratas, então não me veja sujando os sapatos na lama. Talvez a alma.
E no pântano encontrei uma estranha criatura.
Tão diferente e nova que imediatamente me encantou.
Entretanto, com minha vasta experiência junto a animais, sabia que para que este me seguisse eu devia demonstrar desinteresse. Afinal, se os cachorros se cansam de exageros, imagine esta criatura magnífica?
Ele era belo, exótico, estranho, perigoso.
Tudo o que eu precisava, e jamais admitiria, é claro.
Então, enquanto minhas companheiras de jornada se encantavam e se derramavam por aquela criatura, eu simplesmente saí de perto. Talvez fosse melhor que ele escolhesse alguma delas, pensava eu, com muita inveja.
Eis que minha armadilha previsível deu certo!
Começo a pensar se eram as armadilhas realmente incríveis ou era eu o alvo fácil e vulnerável.
E essa serpente me enrolou, com sua malícia e suavidade.
Me agarrou com a força de quem não deixa respirar. E me apresentou o veneno.
Que por muito tempo me assombrou.
E todo o resto que não deveria ser assim.
Este maligno ser, na verdade não era tão mal, mas sim fraco. E assim enfraquecia tudo ao seu redor.
Ai de quem ousar lhe dar abrigo. Doses diárias de maldade nos fazem amargos e vis.
Um dia, não mais do que de repente, todo o veneno e a dor foram maiores do que o encantamento. E ele simplesmente acabou.
E acabou a força, e nem o ódio pôde fazer esta voltar.
Passara a mágoa, ficou a lembrança. Não ruim, nem boa, uma lembrança estranha. Estranheza sim.

Hoje a serpente vive em sua toca sombria e enfeitada, ainda hipnotizando almas fracas, e as mantendo em torno de si.
E oferecendo veneno.

Hoje o veneno não mais me atrai. Talvez nunca me atraiu, o encanto era ele, e se perdeu.

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