terça-feira, 4 de maio de 2010

O Tigre


O Tigre é um animal com características únicas. Flexibilidade, astúcia, velocidade, esperteza.
Impressionantemente não me lembro bem da primeira vez que vi o Tigre, então contarei um pouco do que ele certa vez me narrou.
E relembro. Essa história foi e é.
Um dia na selva, sem perceber, passei por ele. Algo o chamou a atenção, e ao ouvir os comentários de algum outro animal mais fraco, porém fiel, ele se dispôs a conhecer melhor aquela que seria sua nova caça.
Muito tempo se passou desde então e alguns encontros casuais ocorreram.
Apesar de meu olhar astuto, eu simplesmente não me recordava deste Tigre. Ele era enigmático e perigoso, mas nada como aquilo que eu conhecera.
Me alertaram com furor de que aquela fera outrora ferira algumas garotas. Entretanto me faltava juízo, sobrava valentia, ou simplesmente eu julgava que comigo seria diferente.
Nos cantos noturnos o Tigre, que mais parecia uma pantera, anunciava que eu seria sua. Eu não acreditava. Mal me lembrava dele.
Então, em um dia de inquietação, eu aceitei encontrá-lo em certas campinas conhecidas.
Em meio a multidões de conhecidos desconhecidos, ao vê-lo se aproximar eu sabia, algo em mim sabia, que era ele. Que era ele!
Uma aura estranha se formou naquela noite.
O Tigre me parecia desarmado. Talvez nervoso, tímido.
Eu me sentia forte, mas desconcertada com aquele ser que parecia ter um pouco de mim.
E tinha. A partir daquela noite eu jamais me olharia no espelho sem perceber em mim também um pouco dele.
Talvez eu tivesse um pouco de tigresa, que audácia pensar isso.
Mas o fato é que éramos iguais.
Jovens, insensatos, mas iguais.
E encontrei ali, naqueles olhos negros, o que chamam amor.

Muitas foram as batalhas e as dúvidas. Nos amamos e nos ferimos como verdadeiros apaixonados.
No entanto, algo em mim me dizia que qualquer tormenta ou problema era apenas temporário. Havia algo maior naquele encontro.
E apesar do seu porte impressionante e suas longas garras, ele possuía um olhar todo meu. Um olhar amável, juvenil, quase infantil. Um olhar doce. Que fazia todo o resto parecer poeira.

Ele era voraz. Essa voracidade era fatal. Especialmente para ele.
Era astuto e ágil, e alternávamos feridas como forma de equilíbrio de duas pessoas que aprendem como amar.
Me descobri forte e fraca. Tive pena e horror de mim mesma.
Descobri o que havia de mais vil em mim, mas também encontrei, depois de muita luta, meu equilíbrio.

Mais uma vez o tempo passou, e as circunstâncias mudaram o cenário.
Mas dessa vez não era mais um adeus...

E me fiz pássaro, para provar daquilo que eu precisava para viver. Para tomar nas mãos as rédeas da minha própria vida.
Ele se fez rocha. Se fechou em si, cultivando a dor que também vivia em mim.
O tempo nos fez distantes. Ou talvez mais próximos.
E aprendemos a duras penas a viver um sem o outro. Para um dia novamente vivermos juntos.

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