Então, esqueça!
Creio realmente que isto foi inventado por algum homem desprezível que planejava abordar alguma mulher boa demais para ele.
Sei bem que não sou uma princesa. Mas certamente não sou uma sapa.
Vamos ao sapo.
Certo dia, passeando por um novo pântano, na verdade conhecendo-o, avistei um sapo.
Ele não era belo ou encantador. Muito menos cortês ou charmoso. Nem mesmo atraente.
Mas era, a meu ver na época, certamente uma companhia passageira e sem maiores complicações.
Mero engano.
E dancei com o sapo. E ele, que em sua megalomania, costumeira em seres baixos, acreditou mesmo que era um príncipe.
Pensei: "Esse não me trará nada" e era isso que eu precisava, ou acreditava precisar, para tentar em vão esquecer certo Tigre do passado.
Este sapo era engraçado, como todos são. Ele se fartava de lodo e fazia a alegria de todos aqueles que estavam por perto. Pelo menos até começar a quebrar as coisas, ou apagar em algum canto.
Mas o sapo era leve, e assim as coisas seguiram.
Não me orgulhava de ter um sapo ao meu lado, mas dizia a todos que ela se tornara um príncipe, tentando assim justificar meu erro idiota.
Muitas mulheres fazem isso, nem tente me julgar.
A verdade é que uma vez sapo sempre sapo.
E por saber disso ele queria mesmo que eu jamais olhasse para o lado, e que acreditasse que aquela era a minha realidade. Por um tempo funcionou.
Se eu não soubesse que havia um mundo fora daquela lagoa fétida, então o sapo se tornaria uma criatura admirável. Mas nem ele era capaz de se admirar.
Além desta situação saudável, havia uma família de cobras e lagartos sempre presente, e pronta para azedar ainda mais esta receita.
Porém, eu, aficcionada pela Bela e a Fera, me achei capaz de fazer aquela criatura se transformar em algo que preste. E me dispus a tudo possível para isso. Me anulei, me fantasiei, esqueci o que sabia e fui para a lagoa.
Ele sabia que eu não era assim, e isso aos poucos se transformou em rancor. Talvez por ele me achar superior, ou por me achar incapaz de ser como ele. E em certo ponto, por eu querer que ele fosse mais do que ele poderia ser.
Essa questão de poder é muito interessante.
De fato ele jamais poderia ser o que eu esperava. Não nascera príncipe. Nem ao menos poderia ter algo de nobre. Dependia de todos os seus vícios, e jamais teve clareza mental ou de sentimentos.
Vivia na lagoa fétida, com água parada.
Inocente, ou imbecil, que fui, tentei agitar esta água, e o resultado é óbvio. Me sujei mais do que deveria e queria.
Cheguei a esquecer que aquela sujeira não fazia parte de mim.
Então surgiu uma nova figura na história. O primeiro homem da história de cada um. Meu pai. Aquele que jamais havia se manifestado falou tudo o que precisava:
Isto é uma perda de tempo.
Por algumas noites essas palavras ressoaram em minha mente e alma.
Um dia, por fim, me esforçando para me livrar do vício que não era meu, resolvi deixar a lagoa e tudo o que pertencia a ela.
Fui embora carregando a mágoa e o vício.
Tropecei.
Demorei a deixar a bagagem pesada de lado.
Mas enfim percebi que não havia erro. Eu estava aprendendo que haviam limites. Os meus.
E respeitando-os eu pude renascer.
E aprender que sapos não se transformam em príncipes. Mas eles transpiram veneno.
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