segunda-feira, 3 de maio de 2010

O cachorro


Toda criança sonha em ter um cachorro. Na verdade nem se sabe bem o porque, e este era o caso, mas deseja-se tanto, mas tanto, mas tanto, que em determinada época, com maior ou menor intensidade, uma criança é capaz de adoecer para ter um desses.

Lembro-me quando, ainda muito pequena, vi uma mulher que vendia filhotes na frente de um parque na minha cidade natal. Filhotes de Husky Siberianos. Me apaixonei. Olhos azuis, aquele pelo lindo, e toda aquela energia.
Nem sabia que esses pobres bichinhos, no calor do cerrado, mais sofrem do que vivem, e que ficariam maior que eu mesma na época. Muito menos sabia que minha mãe detestava cachorros, o que evidentemente era o motivo pelo qual não os tinha, e o que fiquei sabendo em muito pouco tempo.

O encantamento inicial com um cachorro é assim, ele é lindo, carinhoso, amistoso, enfim, perfeito. Não contamos com a bagunça, o mal cheio, os maus hábitos, os gastos, o trabalho necessário. Enfim, é uma verdadeira enganação para uma criança e são poucas as que conheço que de fato cuidaram dos seus cachorros, sendo que essa obrigação acaba por ficar por alguém da família ou babás bem dispostas.

Um dia, não muito tempo depois, conheci o primeiro homem dessa espécie. Ele era lindo, mais velho e sinceramente encantador.
Como é característico dos cachorros, era absurdamente infiel e instável, mas profundamente amável quando conveniente.
E eis meu primeiro amor.
Infantil como era para ser.
O conheci como um objeto distante de admiração. Que na verdade não ia além do aspecto externo que era tudo que eu conhecia.
E achava simplesmente impossível tê-lo. Eu sabia que era errado.
Mas acredita que sem muito esforço eu consegui?
Parecia impossível mas sim, eu consegui.
Desfilava feliz com ele para as minhas amigas, sem perceber muito claramente até onde isso me fazia bem ou me dava medo. Evidentemente isso só acontecia quando ele, de boa vontade, voltava de suas passeadas na vizinhança. Cachorros são tão irracionais.
O tempo passou e eu percebi que não era tão sensacional tê-lo por perto. Até porque, deixara de ser exclusividade minha logo, se é que um dia o fora.
Mas não pense que eu em um ato de bravura o coloquei para correr.
Me faltava tal força, afinal eu também estava aprendendo.
Um dia eu parti. Como ele facilmente fazia.
E então a dor que era minha ficou sendo totalmente dele.
Com a ausência da dona ele sempre choramingava. Normal.
Esse mesmo charme o fez logo conseguir uma nova dona. Mas isso jamais quis dizer que ele não procurasse as casas vizinhas, e as passadas, e as futuras.

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